VICIADOS EM EMOÇÃO – [Sublimação ou morte?]



Marcio Garrit - Psicanalista

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Quem não vive na borda ocupa muito espaço! Essa é a frase que termina o filme, e é com ela que eu vou começar a tentar entender o que eu acabei de assistir. O que seria viver na borda como forma exclusiva de sentido pra vida? O simples fato de viver já não seria estar na borda o tempo todo? Me parece que para essas pessoas do filme, viver gera uma insuportabilidade que as empurra pra borda, e não contentes com esta, procuram outros meios para serem empurrados pra fora da vida.

Documentário Francês, de 2014, dirigido por Thierry Donard, exibido atualmente pela Netflix, Viciados em emoção mostra a história de alguns atletas que fizeram da sua vida a busca de práticas esportivas extremas. E quando digo extrema, é extrema mesmo. Cenas como se jogar de um penhasco é algo corriqueiro ao longo das 01h30min de filme. Assistir a tudo isso me fez pensar: práticas extremas de esporte é uma maneira diferente de flertar com a morte, sem assumir pra si que no fundo é disso que se trata. É sobre isso esse documentário, e nas linhas abaixo tentarei não dar compreensão aos motivos que levam alguém a se abraçar com a morte apenas para sentir como é!

Freud, ao longo de seus escritos sobre o aparelho psíquico, nos afirma que teríamos 3 saídas para os insuportáveis do recalque: Pulsão de vida, pulsão de morte e sublimação, sendo essa última a melhor de todas. Sublimação seria tudo aquilo que auxilia na criação da cultura. Poderíamos dizer que isso não se limita a pintar quadros ou encenar peças teatrais. Atividades intelectuais e esportivas, além de outras coisas mais, também deverão estar classificadas como sublimatórias. Um oposto disso seria a pulsão de morte. Os sintomas desencadeados pela mesma são aterrorizantes. A pulsão de morte, também citado por Freud a Einstein como Thânatos, não se preocupa em criar laços ou construir algo frutífero para a cultura, muito pelo contrário, seu objetivo é paralisar e desconstruir. Mesmo Lacan, que considera a pulsão de morte algo que antecede a criação, não exclui da mesma o papel destruidor. Mas, e quando vemos práticas nobres que incitam a destruição ou a morte? O que e como pensar a respeito?

A primeira vez que percebi isso de forma tão crua, foi quando assisti o documentário Senna: O brasileiro, O herói, O campeão; de 2010 e dirigido por Asif Kapadia. Como alguém que gerava tanta alegria as massas com a prática do seu esporte, o fazia sem pensar no abraço inevitável com a morte? O que há de sombrio em tudo isso? Senna não tinha medo de morrer. Entrava no carro e se fosse à última vez tudo bem! Isso fica, pelo menos pra mim ficou, tão claro no documentário que a partir daí comecei a perceber que até no belo o trágico não deixa de existir.

Não pretendo aqui nesse espaço, articular conceitualmente a sublimação com a pulsão de morte a partir de Freud com Lacan ou Klein. Vamos deixar isso para as revistas técnicas e as inúmeras teses já publicadas. Vou me permitir filosofar um pouco com vocês sobre esse casamento da morte com o belo. Sobre a insuficiência que a vida trás para alguns a tal ponto que precisem enredar todo um caminho de beleza para irem ao encontro com a morte.

Farei isso como se fosse a última vez e tudo bem! Como será viver levando esse tipo de filosofia a “ferro e fogo”? É importante deixar claro que a expressão última vez é última vez mesmo. A vida é um risco e todos sabemos disso, porém, uma coisa é quando você se arrisca tendo algum controle sobre isso, outra é quando o risco praticamente deixa de ser risco e é reclassificado à categoria de fato. Descer de um penhasco extremamente alto, sobre uma prancha ou bicicleta, poderia ocasionar uma queda com quase 100% de risco de morte. Nesse caso, não podemos dizer que essa pessoa está tratando a expressão “a vida é um risco” como uma metáfora e sim como um fato! Talvez, se ela substituísse a expressão por “vou me matar fazendo isso” ela não conseguiria descer esse penhasco! E acredito eu, que seja sobre isso, encontrar palavras para contornar esse mal-estar inerente a vida que nos acompanha, com palavras.

O inconsciente é linguagem, nós somos linguagem. Muito antes de Lacan dizer isso já haviam pesquisas sobre a importância das palavras para nossa estruturação de vida em sociedade. As palavras dão a medida do que podemos fazer e como fazer. Elas põem gosto nas coisas, alegria na vida, alívio aos sofrimentos ou podem piorar tudo! Um sujeito pode achar insuportável comer peixe cru, mas consideraria provar sashimi. Somos escravos do que falamos e entendemos e só arriscamos nos desbravar em algum caminho quando temos em nossa subjetividade o significado disso. No escuro ninguém anda! Pelo menos, não por vontade própria.

Talvez, quando pararmos de achar que é bela a prática de estourarmos a cara um do outro, por exemplo, com socos e sair se esvaindo em sangue e sem dente ou de se jogar de penhascos, passemos a não dar tanto ibope para aquilo que flerta com a destruição do Eu. E isso vale pra tudo, inclusive para essas práticas ditas esportivas. Ou, como diria Freud, talvez tudo isso só passe de uma necessidade intrínseca do sujeito de extravasar sua agressividade. E contra isso, nada podemos!

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